Ao pensar a maternidade entre o instinto e o discurso, é fundamental entender que está em jogo não apenas o cuidado com os filhos, mas também o lugar que a mulher ocupa na sociedade.
Esse abismo entre o ideal materno imposto socialmente e a experiência interna da mulher-mãe é, muitas vezes, marcado por angústias, ambivalências e apagamentos do eu.
A colonização do maternar por ideais inalcançáveis
A maternidade costuma afogar a mulher em um mar de exigências internas e externas. Isso mostra que a função materna, longe de ser espontânea ou harmoniosa, é colonizada por ideais inalcançáveis que reforçam a culpa e silenciam o desejo feminino.
Questionar essas construções históricas é essencial para compreender como a visão sobre a mulher foi moldada e, sobretudo, como pode ser transformada.
O "instinto materno" é, em grande parte, uma construção social. A ideia de que toda mulher nasce sabendo ser mãe, que o amor vem instantaneamente, que os sacrifícios são naturais e não custam nada — essas narrativas produzem culpa e silêncio quando a experiência real é diferente.
Os resquícios de um pensamento que adoece
Ainda hoje, resquícios desse pensamento aparecem em discursos que culpabilizam as mulheres por problemas sociais, em julgamentos morais e na desigualdade de oportunidades. A consequência é uma geração de mães exaustas, tentando corresponder a um ideal que não existe.
A mãe que trabalha abandona o filho. A mãe que fica em casa perde a si mesma. A que amamenta por pouco tempo falhou. A que não amamenta é criticada. Há sempre uma régua impossível, sempre uma voz que diz: "você poderia ter feito melhor."
Esse pensamento adoece. E o adoecimento não é fraqueza da mulher — é o resultado previsível de expectativas impossíveis sustentadas por séculos.
Apresentando um caminho
Talvez o primeiro passo para uma maternidade mais real seja justamente esse: reconhecer que não há instinto puro, nem amor perfeito. Desconstruir o ideal materno abre caminhos para a autonomia feminina e para a construção de relações mais verdadeiras entre mães e filhos.
Há mulheres tentando existir entre o amor e o limite. E isso já é profundamente humano.
A psicanálise oferece um espaço para esse questionamento — não para destruir o amor que a mulher tem pela maternidade, mas para torná-lo mais real, mais sustentável, mais seu.
Sou doula e psicanalista, e dedico meu trabalho a acolher mulheres em suas transições — da gestação ao puerpério, da dor à descoberta de si.