Sentir o próprio corpo após parir — seja depois de um trabalho de parto ou de uma cesariana — é um convite a se reconhecer novamente. Olhar para os seios, a barriga, o rosto, e se perguntar: quem sou eu agora? O que meu corpo está tentando me dizer?
Para além do corpo, o "eu"
Essa transformação é profunda e vai além da pele. Para além do corpo, existe a sua subjetividade, o seu "eu" — aquela mulher que você era antes de parir. A grande questão que ecoa no silêncio do puerpério é: como se reconhecer fisicamente, mentalmente e espiritualmente?
Como ser você para o mundo se ainda não se reconhece diante de si mesma?
O puerpério é um tempo de liminaridade — você não é mais a mulher que entrou no hospital, mas ainda não conhece completamente a mulher que nasceu junto com seu filho. Esse entre-lugar pode ser desorientador, mas também é profundamente fértil.
A verdade que ninguém fotografa
Vamos ser honestas. Sim, é uma bênção. E sim, é difícil demais. Viver essa ambivalência é normal e humano.
As redes sociais mostram bebês sorridentes e mães radiantes poucas semanas após o parto. Não mostram as noites sem fim, o corpo que dói, o choro que não tem explicação, a sensação de não saber quem você é enquanto tenta descobrir quem é aquele bebê.
Essa narrativa do puerpério perfeito não acolhe — ela isola. Porque quando a realidade não corresponde à imagem, a mulher pensa que há algo de errado com ela. Mas não há. O puerpério real é exatamente esse: contraditório, intenso, transformador.
O único conselho possível
Não há fórmulas prontas, nem regras a seguir. Se eu pudesse deixar um conselho, seria este: confie no processo.
Realmente, não há regras. O que tem é o seu caminho, o seu tempo. Uma nova mulher nasce junto com o bebê. E, como tudo que nasce, precisa de tempo, paciência e cuidado. Aos poucos, vamos aprendendo, reconhecendo, percebendo, amando e, acima de tudo, nos permitindo viver esse momento que passa — e passa rápido.
Seja a protagonista da sua vida real
Viva para além da romantização da maternidade. Viva a sua vida. Ela é real, e é nela que você é, de fato, a protagonista.
Escutar o próprio corpo no puerpério não é fraqueza. É sabedoria. É o primeiro gesto de cuidado consigo mesma num tempo que cobra tudo da mulher e devolve pouco.
A psicanálise pode ser esse espaço: onde o corpo fala, onde o silêncio tem sentido, onde a mulher pode se voltar para si sem culpa.
Sou doula e psicanalista, e dedico meu trabalho a acolher mulheres em suas transições — da gestação ao puerpério, da dor à descoberta de si.