Antes de se tornar mãe, a mulher vive centrada em sua própria identidade, nos seus desejos e nas suas escolhas. Ao iniciar a maternidade, ela se vê atravessada por uma realidade que dificilmente se alinha aos discursos romantizados que associam a experiência à plenitude e à felicidade absoluta.
Nesse desencontro, surge uma sensação difícil de nomear: a perda de si.
O desaparecimento simbólico
Perde-se liberdade, autonomia, o próprio corpo como espaço de desejo e, às vezes, até a própria subjetividade. Na experiência psíquica, esse apagamento acontece de forma silenciosa. Muitas mulheres sequer percebem que estão desaparecendo simbolicamente — pois, imersas nas demandas da maternidade, desconectam-se de seus próprios desejos, necessidades e histórias.
Esse silenciamento não é somente individual. É também cultural: a sociedade reforça que a boa mãe é aquela que se apaga, que não reclama, que encontra na maternidade a sua completude. E quando a experiência real contradiz esse ideal, a mulher fica sozinha com a estranheza do que sente, sem palavra para nomear.
O centro psíquico: para onde vai a sua energia?
Grande parte da energia psíquica — que antes circulava por vínculos afetivos, pelo corpo ou pela carreira — passa a ser quase integralmente direcionada ao bebê. Ele se torna o centro psíquico da mãe.
Esse movimento, embora natural e necessário nos primeiros meses, carrega o risco de fazer a mulher se perder de si mesma, principalmente quando não há espaço para reflexão, acolhimento ou suporte externo.
A exaustão física soma-se à exaustão do "eu". O corpo que não é mais só seu, os pensamentos que giram em torno do bebê, a dificuldade de lembrar do que gostava antes — tudo isso faz parte de uma reconfiguração identitária profunda que a maioria dos manuais de maternidade ignora.
Reconhecer para se reencontrar
Reconhecer esse processo é o passo essencial para que a maternidade seja vivida de forma mais consciente e humana. É o que permite que o cuidado com o bebê possa, finalmente, conviver com o cuidado consigo mesma.
Não se trata de negar o amor pelo filho — que é real e imenso. Trata-se de incluir você mesma nessa equação. De lembrar que a mãe também é uma pessoa com história, desejos, limites e necessidades.
A psicanálise oferece exatamente isso: um espaço onde a mulher pode se voltar a si mesma, nomear o que sente, e encontrar sentido no que parecia sem saída. Um lugar onde ela também é escutada.
Que partes de você ainda esperam para ser lembradas e cuidadas neste período?
Sou doula e psicanalista, e dedico meu trabalho a acolher mulheres em suas transições — da gestação ao puerpério, da dor à descoberta de si.