No puerpério, muitas mulheres se sentem distantes de si mesmas. Com a chegada do bebê, grande parte da energia da mãe naturalmente se volta para ele. O corpo e a subjetividade podem ficar em segundo plano, e é fácil se perder nesse movimento.
É nesse espaço, entre a entrega ao bebê e a própria rotina, que surgem dores, angústias e sentimentos que antes estavam adormecidos.
A doação e o discurso social
É comum sentir solidão, frustração ou desconexão de quem se era antes. Muitos discursos sociais reforçam essa ideia de que a mãe deve sempre se doar, se anular e colocar o outro em primeiro lugar. Esse ideal de abnegação total muitas vezes sufoca as demandas internas da mulher, gerando um sentimento de apagamento.
A mulher cuida do bebê a cada hora. Quem cuida dela?
Quando esse cuidado de si desaparece completamente, o esgotamento vai muito além do físico. É um cansaço que não se resolve com sono — porque é um cansaço de não poder ser quem se é.
O primeiro passo: a força de se acolher
Mas, mesmo nesse momento intenso e muitas vezes avassalador, existe a possibilidade de se reconectar consigo mesma. Reconhecer esses sentimentos e acolher suas próprias fragilidades não é fraqueza — pelo contrário, é um passo essencial para que a maternidade seja vivida de forma mais consciente, sem apagar o cuidado consigo mesma.
É preciso ouvir o próprio corpo, reconhecer desejos e limites. Dizer "estou exausta" não é abandonar o filho. É ter honestidade sobre o que está vivendo. E essa honestidade é o começo do reencontro.
O reencontro é um caminho, não um destino
Cada mulher tem seu tempo, seu ritmo e seu modo de atravessar essa experiência. E é justamente quando ela se permite esse tempo — sem pressa, sem cobranças — que começa, pouco a pouco, a reencontrar sua vida, seus desejos e a própria essência.
O reencontro não acontece de uma vez. Não é um momento-chave de revelação. É um processo lento, feito de pequenos instantes: a música que você ainda gosta, uma conversa que te lembra quem você era, uma tarde em que você se olha no espelho e reconhece alguém familiar.
A psicanálise pode acompanhar esse processo — não como guia prescritivo, mas como escuta que sustenta o movimento de voltar a si.
Sou doula e psicanalista, e dedico meu trabalho a acolher mulheres em suas transições — da gestação ao puerpério, da dor à descoberta de si.