Mulher sentada refletindo sobre a jornada de ser tentante

Ser tentante: a espera do sim e o luto dos "nãos" mensais

Ninguém conta o quão frustrante é ser tentante, todos os meses ter que conviver com os "nãos". Ser tentante é viver entre extremos: controle e entrega, razão e esperança, força e fragilidade.

Ninguém conta o quão frustrante é ser tentante — todos os meses ter que conviver com os "nãos".

Ser tentante é viver entre extremos: controle e entrega, razão e esperança, força e fragilidade. É acordar e pensar: "Será que já tem um bebê aqui dentro?" Esperar é uma tortura, um teste de paciência e compaixão por si mesma.

A prisão do medo e o corpo que confunde

Ninguém conta que a vida de tentante aprisiona de tal maneira que todo pensamento passa a ser sobre isso. É acordar e ter medo de tomar um simples café, um chá, comer uva roxa ou fazer um exercício físico. É caminhar numa prisão de medo, como se qualquer ação pudesse comprometer uma gestação que ainda não é um "sim".

O corpo pode mostrar sintomas que confundem: cólicas leves, seios doloridos, sono, enjoo. O que leva a angustiantes pensamentos de sim ou não: "Será sintoma ou é só TPM?", "Faço o teste agora? É cedo demais?"

O luto mensal pela perda do filho idealizado

A cada ciclo menstrual em que o "não" chega, o luto simbólico vem junto. Morrem os cenários criados, a imagem de um bebê. A tristeza, o choro e a frustração aparecem mais uma vez. Porque o luto não se refere apenas à perda biológica, mas também à perda do filho que já existia no seu desejo.

Esse luto é real, legítimo e merece ser reconhecido. Não se trata de exagero ou fraqueza emocional — é a expressão de um amor que já existia antes mesmo do resultado positivo.

A pressão que vem de fora

Ninguém conta que tudo isso é atravessado por expectativas sociais, culturais e familiares que ainda associam o valor da mulher à maternidade, como se ser mãe fosse o auge da felicidade e da realização feminina. Essa pressão pesa, e pesa muito.

As perguntas constantes — "E aí, já tem novidade?", "Para quando um filho?" — chegam disfarçadas de afeto, mas carregam o peso de uma cobrança que a tentante já faz a si mesma com intensidade suficiente.

As redes sociais amplificam essa sensação: anúncios de gravidez, fotos de bebês, histórias de concepções rápidas. Tudo parece uma vitrine do que você ainda não tem, ignorando completamente o processo silencioso e solitário que cada mulher vive.

Você não está sozinha

Ser tentante é um mergulho profundo entre o desejo e a espera. E, nesse espaço entre o sim e o não, é preciso aprender a cuidar de si, com delicadeza, com paciência e com amor.

Se você se reconheceu nessas palavras, saiba que a sua dor é legítima. A sua jornada, com todas as suas angústias e esperanças, é válida. A psicanálise pode ser um espaço de acolhimento nesse período — um lugar para falar sobre o que não cabe em lugar nenhum: o filho desejado, o luto mensal, a exaustão de esperar.

Sou doula e psicanalista, e dedico meu trabalho a acolher mulheres em suas transições — da gestação ao puerpério, da dor à descoberta de si.